Canção de Ninar

22, janeiro, 2008 at 9:00 am Deixe um comentário

Madrugada chuvosa, o casal dormia pesado. Desde a chegada do filho que não sabiam bem o que era uma boa noite de sono… ou de sexo. O rádio-relógio marcava três e quinze da manhã quando ouviram um choro vindo do quarto do bebê. A mãe agarrou-se ao travesseiro e fingiu chorar ela também de desespero. O pai entendeu o recado. Levantou-se. Lá estava o bebê: olhos abertos, um chorinho manhoso:

– Canta?

Cantar… E agora? A mãe que era boa nessas coisas. Mas depois da discussão do dia anterior prometera ser mais presente. Puxou pela memória:

Bicho-papão sai de cima do telhado
Deixa o menino dormir sossegado

O filho olhou assustado. Bicho-papão não parecia algo bom. O pai pôs os neurônios para recuperarem outra.

Nana nenê
Que a cuca vem pegar
Papai foi pra roça
Mamãe foi trabalhar

Nessa, foi o pai que assustou. O nenê está sozinho e ainda vem a cuca pegá-lo? Deu razão para o filho quando voltou a chorar. “Calma, calma. Outra!”, disse.

Sambalelê tá doente
Tá com a cabeça quebrada
Sambalelê precisava
É de umas boas palmadas

Nessa o filho gritou. Nem tanto pela cabeça quebrada, pois não entendeu direito. Mas as ‘boas palmadas’ assustaram de verdade. “Meu Deus, quem inventou essas músicas? Ah, tem mais uma!”.

Boi boi boi
Boi da cara preta
Pega esse menino
Que tem medo de careta

O choro aumentou. Do outro quarto a mãe já perguntava se estava tudo bem. “Tudo bem! Estou cantando e ele já vai dormir!”, mentiu. Imaginou um boi de cara preta entrando no quarto fazendo careta. Teve um calafrio.

A canoa virou
pois deixaram ela virar
foi por causa do menino
que não soube remar

Atirei o pau no gato-to
Mas o gato-to não morreu-reu-reu

Marcha soldado
Cabeça de papel
Se não marchar direito
Vai preso no quartel

O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa despedaçada

O pai não acreditava no que cantava. Não lhe vinha à mente uma única canção que não fosse trágica. A mãe já estava parada na porta com olhar de reprovação. O menino engasgava com o choro.

O pai agachou-se no chão próximo ao filho, pôs a mão no seu rosto e disse em tom melodioso:

Dorme, meu filho
Não há o que temer
Papai e mamãe te amam
Nada vai te acontecer

Era o que precisava ouvir. Silenciou e fechou os olhos aliviado. O pai pegou a mãe pela mão e foram para a cama, triunfantes.

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