Dezoito Onças

29, junho, 2007 at 3:04 pm Deixe um comentário

A bicharada está agitada. Hoje é um dia importante que vai mudar o destino de duas das onças do zoológico. Ninguém mais aguenta essa situação. Com a mata pegando fogo em tudo quanto é lugar, a gente acaba tendo que se aproximar dos vilarejos e daí, já viu, acabamos sendo pegos. Foi-se o tempo em que os humanos tinham medo de nós. Ou melhor, ainda têm, mas inventaram umas traquitanas difíceis de escapar. Acabamos parando nessas jaulas. Não é de todo ruim, é verdade, comida à vontade, ausência de perigos, vida tranqüila, mas a superpopulação começou a incomodar.

Quando cheguei eram apenas eu e mais três onças pintadas. Pessoal gente boa, receptivos. Mas isso foi há alguns anos. Hoje somos dezoito. Dezoito! O espaço ficou pequeno. Correr ficou difícil, nadar no tanque nem se fala. A turma fica espalhada pelos cantos, dormindo a maior parte do dia. Tem até revezamento para se espichar na toca.

A coisa começou a ficar feia quando colocaram com a gente as três onças negras. Todo bicho no zoológico fica com seus semelhantes, mas nós tivemos que conviver com esses outros aí. Acho que pensam que somos todos iguais. No dia que os três chegaram foi a primeira vez que alguém atacou um dos tratadores. Um onça-jovem, cabeça quente, quis mostrar a indignação. Nem foi pra machucar de verdade, mas o rapaz ficou um tempão sem aparecer e, quando voltou foi cuidar dos avestruzes. Por um lado foi bom. O veterinário achou que estávamos ficando mais violentos, que era estresse, que as condições não estavam boas. Apontou para um gorducho deitado perto da árvore e disse que até obesidade estava aparecendo por aqui. Resolveram dar um jeito na situação.

Naquela época, éramos vinte. O diretor conseguiu que o zoológico de São Paulo ficasse com dois de nós; pelo menos foi o que se comentou quando um casalzinho jovem foi levado embora. Mas depois disso, ninguém mais teve a mesma sorte. Onça dá trabalho, dizem. Precisa de espaço (obviamente) e comem muito. Os outros zôos se contentam com uma ou duas.

Quem acabou nos ajudando, mesmo sem saberem, foram as jaguatiricas, aqueles animaizinhos irritantes. A fêmea ficou prenha e teve um filhote. A notícia correu. Parece que o zôo do Rio de Janeiro estava precisando de uma, pois a que tinham lá estava velha e ia morrer logo, e pediu para o diretor ceder a recém-nascida. Foi aí que surgiu a tal idéia genial, que os funcionários chamavam, rindo, de “venda casada”: só levariam o filhote se levassem também três onças. Três era muito, já tinham três por lá, o máximo que podiam fazer é ficar com duas fêmeas. Duas fêmeas não, imagina, os machos aqui já eram maioria, ia desequilibrar muito. Fecharam em um casal. Mas impuseram condições. Queriam a fêmea mais jovem, o macho escolheriam quando viessem buscar o filhote.

A jovenzinha mal suportava a felicidade. Ficou até esnobe, rejeitando os afagos rotineiros do pessoal. Andava pela jaula como que escolhendo quem seria seu parceiro de viagem, pois circulou um boato que seria selecionado o macho que tivesse maior afinidade com a moça. Lorota, claro.

O pessoal começou a fazer contas. Dos dezoito, subtraiu-se as três onças negras. Aparentemente, nem por lá queriam elas. Fêmeas pintadas eram seis. Dos nove machos, um estava doente, quatro eram muito velhos e nem mesmo o gorducho acreditava na sua chance. Sobramos três, sendo eu o mais velho. Os outros dois eram o cabeça-quente e um que tinha uma mancha preta que cobria todo o olho direito. Os dois estavam em forma… Precisei quebrar a cabeça para reverter o jogo a meu favor.

O veterinário chegou e as onças já começaram a se posicionar. O olho-preto se pôs sentado, com o peito estufado. Quer se mostrar forte e saudável. O cabeça-quente, sabendo da sua fama, deitou-se com a barriga pra cima, dócil, dócil. A jovenzinha passou por mim abanando o rabo e já está do lado da entrada da jaula. Eu fico por aqui mesmo, deitado ao lado da grade.

Já faz meia hora que ele está olhando para nós, fazendo sua escolha. Finalmente pede para os tratadores abrirem a porta da jaula. Um dos tratadores trás uma haste comprida com um laço na ponta, o outro um rifle com tranquilizante. O rifle incomoda as onças. A maioria tinha levado um tiro dele ao ser capturada.

Vão direto pra jovenzinha, que não reage e os acompanha feliz. Daqui a pouco eles vão voltar para pegar o macho, tenho que ser rápido.

Irei até o cabeça quente e falarei com um riso sarcástico que a jovenzinha confessou-me ontem haver escolhido o olho preto, que vai acabar sendo mesmo o escolhido quando eles voltarem, afinal é o mais bonito de nós três. Olharei para o cabeça quente com cara de “eu te disse” e ele vai se descontrolar e partir pra cima do olho preto. Os dois vão se engalfinhar, um dos dois levará um tiro de tranquilizante, mas os dois estarão suficientemente machucados para não poderem partir. O veterinário, para não perder a viagem, vai olhar em volta e me escolher. Afinal, não sou tão pior que os outros dois. Ou sou?

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