Conversa de Homem

26, junho, 2007 at 8:47 pm Deixe um comentário

O banheiro da casa era um lugar insólito para aquela conversa, mas era o único lugar onde podiam tê-la tranquilamente. Dentro do possível, tentavam manter-se sérios, ainda que um ou outro temiam que quando as vozes começassem a reverberar nas paredes forradas de azulejos brancos poderiam cair na gargalhada.

Foram se ajeitando como dava. Um escorou-se na pia, outro cruzou as pernas no chão, outro fez do cesto de lixo um banquinho. Maurício trancou a porta e arrumou-se no tampo almofadado da privada. Começou.

– Precisamos conversar. Algumas coisas terão que mudar daqui para a frente.

– Mudar? Como assim?

– Mudar… Não dá mais para mantermos a vida que temos levado até agora. Veja você, por exemplo…

– Eu? – Assustou-se o que estava sobre o cesto de lixo, tentando arrumar algum conforto no assento improvisado, para desespero do que estava encostado na pia, que olhava para baixo e tapava a boca com a mão para não rir.

– Sim. Não vai mais ser possível continuar com a academia, as aulas de tênis e o futebol. É muito! Vamos ter que cortar alguma coisa.

– Cortar? Bem, veja, não dá para parar a academia. Já não sou mais criança, preciso da academia para me manter em forma. Você sabe que é uma luta para não deixar os pneuzinhos aparecerem!

– Concordo, é justo. Mas as aulas de tênis… não vai dar.

– Tá falando sério? – Desistiu do cesto de lixo e ficou em pé, com a mão apoiada no registro de água quente. O da pia olhou para cima e suspirou aliviado.

– Desculpe.

– Justo agora que eu estava jogando melhor… O futebol também?

– Acredito que não… Mas duas vezes por semana é muito. Escolha um dia, está bem?

– Posso ao menos continuar assistindo aos jogos de futebol pela televisão?

– Sim, claro! Também somos filhos de Deus! O futebol na TV de quarta é sagrado.

O do cesto de lixo, agora o do registro de água quente, levantou as sobrancelhas e torceu a boca, resignado. Maurício esboçou um sorriso de agradecimento e compaixão e virou-se para o que estava no chão. Teve que afastar as pernas e ficar olhando para baixo. O da pia olhou para a porta para não rir.

– Quanto a você, também teremos que fazer alguns ajustes.

– Eu? Que ajustes? Vai querer que eu trabalhe mais? Olha: eu dou um duro danado na empresa.

– Não, exatamente o contrário! Precisa dar um jeito para chegar mais cedo em casa.

– Calma aí! Não é assim! Você acha que eu trabalho até tarde porque quero? Desde que o Marcão foi tranferido, estou fazendo o trabalho de dois! Quer que eu seja demitido?

– De forma alguma. Mas acredito que seja possível ser um pouco mais eficiente. Chegar mais cedo, ser mais organizado, encurtar o horário do almoço… Vamos concordar que se você fizer menos pausas para tomar café dá para ganhar no mínimo meia hora.

– Toc, toc, toc. Maurício?

– Só um minuto, Ana, por favor. – Voltou-se para o do chão. – Como estava dizendo, faça uma lista das tarefas no trabalho, seja mais metódico e tenho certeza que vai conseguir chegar em casa antes das oito.

– Ok, vou tentar, mas saiba que não vai ser fácil.

– Eu entendo e agradeço muito o esforço.

O da pia já antevia que não vinham boas notícias.

– E quanto a mim? Qual é a bronca? – Lançou um olhar de despeito.

– A tua situação é a mais difícil. Não vejo como você continuar aqui. Você terá que nos deixar, sinto muito.

– Eu? Ir embora? Tá me zoando? Não se lembra de tudo por que passamos?

– As coisas mudaram agora, entenda. Todas aquelas noitadas e bebedeiras? É impossível! E aquele bando de mulheres ligando todo dia, então? É muito arriscado e, para falar a verdade, não faz mais sentido.

– Ah… Agora não faz mais sentido, é? Engraçado… Quando comemos aquelas duas irmãs juntas, parecia que fazia sentido para você. E também não me lembro de você reclamando daquela rave regada a vodka e você-sabe-mais-o-quê.

– Passou. Já era. Vou guardar as lembranças, claro, mas não quero mais.

– Não consigo entender. Como você mudou… Tudo por causa dela?

– Sim, por ela.

– Vai valer a pena?

– Tenho certeza que sim! Eu a amo, é tudo o que eu quero agora.

– Espero que você não se arrependa do que está fazendo.

– Maurício, está tudo bem?

– Oi, já estou saindo.

– O que você estava fazendo trancado no banheiro? Estava falando sozinho?

– Nada, Ana, nada. Estava pensando alto.

– Bem… vamos?

– Vamos, vamos. Que horas são? Nossa! Estamos atrasados.

– Estou ficando preocupada. O casamento já está aí e ainda tem um monte de coisas pra resolver.

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