Archive for Junho 26th, 2007

Conversa de Homem

O banheiro da casa era um lugar insólito para aquela conversa, mas era o único lugar onde podiam tê-la tranquilamente. Dentro do possível, tentavam manter-se sérios, ainda que um ou outro temiam que quando as vozes começassem a reverberar nas paredes forradas de azulejos brancos poderiam cair na gargalhada.

Foram se ajeitando como dava. Um escorou-se na pia, outro cruzou as pernas no chão, outro fez do cesto de lixo um banquinho. Maurício trancou a porta e arrumou-se no tampo almofadado da privada. Começou.

- Precisamos conversar. Algumas coisas terão que mudar daqui para a frente.

- Mudar? Como assim?

- Mudar… Não dá mais para mantermos a vida que temos levado até agora. Veja você, por exemplo…

- Eu? – Assustou-se o que estava sobre o cesto de lixo, tentando arrumar algum conforto no assento improvisado, para desespero do que estava encostado na pia, que olhava para baixo e tapava a boca com a mão para não rir.

- Sim. Não vai mais ser possível continuar com a academia, as aulas de tênis e o futebol. É muito! Vamos ter que cortar alguma coisa.

- Cortar? Bem, veja, não dá para parar a academia. Já não sou mais criança, preciso da academia para me manter em forma. Você sabe que é uma luta para não deixar os pneuzinhos aparecerem!

- Concordo, é justo. Mas as aulas de tênis… não vai dar.

- Tá falando sério? – Desistiu do cesto de lixo e ficou em pé, com a mão apoiada no registro de água quente. O da pia olhou para cima e suspirou aliviado.

- Desculpe.

- Justo agora que eu estava jogando melhor… O futebol também?

- Acredito que não… Mas duas vezes por semana é muito. Escolha um dia, está bem?

- Posso ao menos continuar assistindo aos jogos de futebol pela televisão?

- Sim, claro! Também somos filhos de Deus! O futebol na TV de quarta é sagrado.

O do cesto de lixo, agora o do registro de água quente, levantou as sobrancelhas e torceu a boca, resignado. Maurício esboçou um sorriso de agradecimento e compaixão e virou-se para o que estava no chão. Teve que afastar as pernas e ficar olhando para baixo. O da pia olhou para a porta para não rir.

- Quanto a você, também teremos que fazer alguns ajustes.

- Eu? Que ajustes? Vai querer que eu trabalhe mais? Olha: eu dou um duro danado na empresa.

- Não, exatamente o contrário! Precisa dar um jeito para chegar mais cedo em casa.

- Calma aí! Não é assim! Você acha que eu trabalho até tarde porque quero? Desde que o Marcão foi tranferido, estou fazendo o trabalho de dois! Quer que eu seja demitido?

- De forma alguma. Mas acredito que seja possível ser um pouco mais eficiente. Chegar mais cedo, ser mais organizado, encurtar o horário do almoço… Vamos concordar que se você fizer menos pausas para tomar café dá para ganhar no mínimo meia hora.

- Toc, toc, toc. Maurício?

- Só um minuto, Ana, por favor. – Voltou-se para o do chão. – Como estava dizendo, faça uma lista das tarefas no trabalho, seja mais metódico e tenho certeza que vai conseguir chegar em casa antes das oito.

- Ok, vou tentar, mas saiba que não vai ser fácil.

- Eu entendo e agradeço muito o esforço.

O da pia já antevia que não vinham boas notícias.

- E quanto a mim? Qual é a bronca? – Lançou um olhar de despeito.

- A tua situação é a mais difícil. Não vejo como você continuar aqui. Você terá que nos deixar, sinto muito.

- Eu? Ir embora? Tá me zoando? Não se lembra de tudo por que passamos?

- As coisas mudaram agora, entenda. Todas aquelas noitadas e bebedeiras? É impossível! E aquele bando de mulheres ligando todo dia, então? É muito arriscado e, para falar a verdade, não faz mais sentido.

- Ah… Agora não faz mais sentido, é? Engraçado… Quando comemos aquelas duas irmãs juntas, parecia que fazia sentido para você. E também não me lembro de você reclamando daquela rave regada a vodka e você-sabe-mais-o-quê.

- Passou. Já era. Vou guardar as lembranças, claro, mas não quero mais.

- Não consigo entender. Como você mudou… Tudo por causa dela?

- Sim, por ela.

- Vai valer a pena?

- Tenho certeza que sim! Eu a amo, é tudo o que eu quero agora.

- Espero que você não se arrependa do que está fazendo.

- Maurício, está tudo bem?

- Oi, já estou saindo.

- O que você estava fazendo trancado no banheiro? Estava falando sozinho?

- Nada, Ana, nada. Estava pensando alto.

- Bem… vamos?

- Vamos, vamos. Que horas são? Nossa! Estamos atrasados.

- Estou ficando preocupada. O casamento já está aí e ainda tem um monte de coisas pra resolver.

Add comment 26, Junho, 2007


Cadê o texto que eu vi aquele dia?

Junho 2007
S T Q Q S S D
    Jul »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930  

O mais lido por aqui

Categorias

Apple Blog Carros Contos Dia-a-dia Esportes Genética Google Governo iPhone iPod Long tail Marketing Meio ambiente Mobile Negócios Opiniões Privacidade Redes sociais Second Life Tecnologia Textos Web Web 2.0

Alguns links....

RSS Um pouco de tudo

Feeds

Blog Stats

Comentários

Alexandre Almeida em A saga para vender um carro…
claudia em A saga para vender um carro…
Celso em A saga para vender um carro…
furia abbot em Quando o iPhone for desbl…
conhecimentosp em O carro movido a ar comprimido…