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Conversa de Homem
O banheiro da casa era um lugar insólito para aquela conversa, mas era o único lugar onde podiam tê-la tranquilamente. Dentro do possível, tentavam manter-se sérios, ainda que um ou outro temiam que quando as vozes começassem a reverberar nas paredes forradas de azulejos brancos poderiam cair na gargalhada.
Foram se ajeitando como dava. Um escorou-se na pia, outro cruzou as pernas no chão, outro fez do cesto de lixo um banquinho. Maurício trancou a porta e arrumou-se no tampo almofadado da privada. Começou.
- Precisamos conversar. Algumas coisas terão que mudar daqui para a frente.
- Mudar? Como assim?
- Mudar… Não dá mais para mantermos a vida que temos levado até agora. Veja você, por exemplo…
- Eu? – Assustou-se o que estava sobre o cesto de lixo, tentando arrumar algum conforto no assento improvisado, para desespero do que estava encostado na pia, que olhava para baixo e tapava a boca com a mão para não rir.
- Sim. Não vai mais ser possível continuar com a academia, as aulas de tênis e o futebol. É muito! Vamos ter que cortar alguma coisa.
- Cortar? Bem, veja, não dá para parar a academia. Já não sou mais criança, preciso da academia para me manter em forma. Você sabe que é uma luta para não deixar os pneuzinhos aparecerem!
- Concordo, é justo. Mas as aulas de tênis… não vai dar.
- Tá falando sério? – Desistiu do cesto de lixo e ficou em pé, com a mão apoiada no registro de água quente. O da pia olhou para cima e suspirou aliviado.
- Desculpe.
- Justo agora que eu estava jogando melhor… O futebol também?
- Acredito que não… Mas duas vezes por semana é muito. Escolha um dia, está bem?
- Posso ao menos continuar assistindo aos jogos de futebol pela televisão?
- Sim, claro! Também somos filhos de Deus! O futebol na TV de quarta é sagrado.
O do cesto de lixo, agora o do registro de água quente, levantou as sobrancelhas e torceu a boca, resignado. Maurício esboçou um sorriso de agradecimento e compaixão e virou-se para o que estava no chão. Teve que afastar as pernas e ficar olhando para baixo. O da pia olhou para a porta para não rir.
- Quanto a você, também teremos que fazer alguns ajustes.
- Eu? Que ajustes? Vai querer que eu trabalhe mais? Olha: eu dou um duro danado na empresa.
- Não, exatamente o contrário! Precisa dar um jeito para chegar mais cedo em casa.
- Calma aí! Não é assim! Você acha que eu trabalho até tarde porque quero? Desde que o Marcão foi tranferido, estou fazendo o trabalho de dois! Quer que eu seja demitido?
- De forma alguma. Mas acredito que seja possível ser um pouco mais eficiente. Chegar mais cedo, ser mais organizado, encurtar o horário do almoço… Vamos concordar que se você fizer menos pausas para tomar café dá para ganhar no mínimo meia hora.
- Toc, toc, toc. Maurício?
- Só um minuto, Ana, por favor. – Voltou-se para o do chão. – Como estava dizendo, faça uma lista das tarefas no trabalho, seja mais metódico e tenho certeza que vai conseguir chegar em casa antes das oito.
- Ok, vou tentar, mas saiba que não vai ser fácil.
- Eu entendo e agradeço muito o esforço.
O da pia já antevia que não vinham boas notícias.
- E quanto a mim? Qual é a bronca? – Lançou um olhar de despeito.
- A tua situação é a mais difícil. Não vejo como você continuar aqui. Você terá que nos deixar, sinto muito.
- Eu? Ir embora? Tá me zoando? Não se lembra de tudo por que passamos?
- As coisas mudaram agora, entenda. Todas aquelas noitadas e bebedeiras? É impossível! E aquele bando de mulheres ligando todo dia, então? É muito arriscado e, para falar a verdade, não faz mais sentido.
- Ah… Agora não faz mais sentido, é? Engraçado… Quando comemos aquelas duas irmãs juntas, parecia que fazia sentido para você. E também não me lembro de você reclamando daquela rave regada a vodka e você-sabe-mais-o-quê.
- Passou. Já era. Vou guardar as lembranças, claro, mas não quero mais.
- Não consigo entender. Como você mudou… Tudo por causa dela?
- Sim, por ela.
- Vai valer a pena?
- Tenho certeza que sim! Eu a amo, é tudo o que eu quero agora.
- Espero que você não se arrependa do que está fazendo.
- Maurício, está tudo bem?
- Oi, já estou saindo.
- O que você estava fazendo trancado no banheiro? Estava falando sozinho?
- Nada, Ana, nada. Estava pensando alto.
- Bem… vamos?
- Vamos, vamos. Que horas são? Nossa! Estamos atrasados.
- Estou ficando preocupada. O casamento já está aí e ainda tem um monte de coisas pra resolver.
Add comment 26, Junho, 2007