A Boneca sem Cabeça

24, Junho, 2007

Sentiu uma zonzeira e abriu os olhos a custo. A visão começou a desembaciar e um gosto ácido veio à boca. Estava deitada no chão e, na tentativa de reorganizar as idéias, balançou a cabeça algumas vezes. Nada. Não se lembrava da queda ‑ se é que havia caído ‑ tampouco identificava algo ou alguém familiar por perto; ouviu um ruído irritante e contínuo que a fez sentir-se mal. Tentou esquecê-lo ‑ definitivamente não era o seu maior problema àquela altura ‑ mas o som entrava pelos ouvidos e a enjoava.

Situação estranha acordar em um lugar desconhecido, sem saber como havia ali chegado. Fora a mão dolorida, sentia-se bem. Ao que lhe constasse, não sofria de desmaios ou males súbitos. Situação estranha.

Procurou uma posição mais confortável, sem ainda se aventurar a ficar em pé. Sentou-se e por ali ficou, com as pernas cruzadas, mesmo porque em pé, sem saber para onde ir, só lhe restaria sentar novamente.

‑ Pense! – ordenou a si mesma, mas o ruído irritante a perturbava, dificultando o raciocínio. Queria silêncio, precisava de respostas, mas só sentia um vazio que pesava na sua cabeça. Olhou à frente buscando um caminho, mas as árvores do parque eram paredes de um labirinto sem saída.

Concluiu que não sairia daquela sozinha; precisava de ajuda. Vasculhou os bolsos a procura de um telefone celular, sem ainda estar certa de a quem telefonaria. Nada encontrou, pelo menos nada que lhe fosse útil, pois, por mais confusa que estivesse, sabia que um punhado de moedas e alguns papéis amassados não a tirariam daquela agonia. A opção era gritar e torcer para que alguém a ouvisse. Gritar e chorar.

Chorar… Sim, um choro; o som irritante era um choro, um choro de criança. Voltou-se para trás, na direção do som, e deparou-se com uma menina.

A menina a fitava assustada e confusa. Parecia perdida e imobilizada pelo medo. Queria correr, mas tinha que ficar ali, para não deixar sua mãe furiosa.

‑ Qual o seu nome? Está perdida? Onde está sua mãe?

O choro intensificou-se. Soluçava, trazendo sob um braço uma boneca sem cabeça e nas mãos a cabeça decepada. Tinha uns quatro anos, idade mais do que suficiente para entender suas perguntas e respondê-las. Mas ela se limitava a chorar. E como chorava!

‑ Que inferno!

Pelo menos já sabia que gritar de pouco adiantaria. Se não acudiram essa criança que berrava a plenos pulmões não seriam seus gritos que surtiriam efeito. Levantou-se resignada. Pegaria a criança pela mão e sairia por aí, sabe lá Deus em que direção, buscando alguém. Com sorte encontraria os pais da criança. Diria “Conhecem essa menina? É sua filha? Pronto, toma. Encontei-a por aí vagando. Estava assustada, coitada, não parava de chorar. A propósito, sabem como faço para chegar à minha casa?”.

‑ Querida, pode parar de chorar. Venha, vamos encontrar seus pais. – Disse docemente, estendendo o braço para que a menina pudesse pegar na sua mão. Mas, para sua surpresa, a garota recuou dois passos, encolheu os braços sobre o peito e, como se isso fosse possível, apertou o choro. A enxurrada de lágrimas se misturava com o muco que corria do nariz e o caldo resultante melava o rosto e pingava grosso sobre o vestidinho florido.

‑ Vamos. Não precisa ter medo.

Berros.

‑ Chega. Também estou em apuros.

Urros.

- Fica quieta! Não aguento mais esse choro!

Soluços.

‑ Cala a boca! – Gritou irritada e tentou agarrar à força a garota, que reagiu se debatendo enlouquecida.

Aquilo era demais para alguém que mal sabia quem era. Com que direito aquela criança insolente negava a ajuda de quem tinha problemas mais sérios que uma mãe perdida ou uma boneca quebrada? Descontrolou-se por um momento e, como aquela orquestra desgovernada teimava em tocar descompassada e desafinada, deu um tapa no rosto da garota.

De repente, entre o desferimento do golpe e o impacto, lembrou-se:

‑ Marina, minha filha!

Lembranças invadiam seu cérebro com a força do ar que adentra uma aeronave quando uma janela se rompe. Relembrou do passeio no parque com Marina e como a menina ficara quando a cabeça da boneca nova fora arrancada por acidente. Tentara acalmá-la, compraria outra boneca, não havia razão para desespero.

Viu sua menina cambalear para o lado com a força da agressão e não entendeu como pôde ferir alguém a quem amava tanto.

Marina silenciou-se por um segundo, meio que engasgada pelo choro, meio que assustada pelo tapa que levara. A mulher percebeu que ela recuperava o fôlego e que em breve choraria novamente.

Tomada pela culpa e pela covardia, a mãe atirou-se ao chão, envergonhada. Pouco a pouco sua mente foi se esvaziando. Dormiu aliviada e acordou alguns segundos depois.

Sentiu uma zonzeira e abriu os olhos a custo.

Entry Filed under: Contos, Textos. Tags: , , , , .

Leave a Comment

Required

Required, hidden

Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Cadê o texto que eu vi aquele dia?

Junho 2007
S T Q Q S S D
    Jul »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
252627282930  

O mais lido por aqui

Categorias

Apple Blog Carros Contos Dia-a-dia Esportes Genética Google Governo iPhone iPod Long tail Marketing Meio ambiente Mobile Negócios Opiniões Privacidade Redes sociais Second Life Tecnologia Textos Web Web 2.0

Alguns links....

RSS Um pouco de tudo

Feeds

Blog Stats

Comentários

Alexandre Almeida em A saga para vender um carro…
claudia em A saga para vender um carro…
Celso em A saga para vender um carro…
furia abbot em Quando o iPhone for desbl…
conhecimentosp em O carro movido a ar comprimido…